18 de agosto de 2011

L'Heure Bleue



(...) Peguei o frasco de L'Heure Bleue e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume se evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas. (...) Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleue era sua colônia favorita. - p.23
 
L'Heure Bleue. Traduzido do francês: Hora azul. Pode ainda significar o crepúsculo a tingir o firmamento de um matiz frio de azul. O perfume foi criado há 100 anos por Jacques Guerlain. Sua composição integra anis, bergamota, cravo, flor de laranjeira, heliotrópio, rosa búlgara, tuberosa, íris, baunilha e almíscar. O efeito produzido é romântico, misterioso, triste,  melancólico, contendo ainda um tom de elegância calma.

Nos períodos de guerra, em razão do racionamento, era luxo ter um frasco desses aí. Claire chega a comentar isso. Diante desse quadro, é possível imaginar as belas damas com seus chapéus clochê  despedindo-se dos amados que lutariam as mais duras das guerras. A emanação aromática neles impregnada atuaria como um doce beijo de adeus ao cair da noite. 

L'HB, dizem os entendidos, é completo e rico para ser uma coisa só. Mesmo porque o segredo de sua fragância não se revela à proximidade de uma superficial "snif". Ao contrário, impõe respeito. Ora, não haveria marca distintiva melhor para Claire. 

Hoje usar L'HB seria como viajar no tempo, pois evoca as imagens nostálgicas dos tempos idos.

Conhecendo bem a história, percebe-se que essa referência literária ao produto é muito mais do que merchandising. É, na verdade, mais um simbolismo especial com a cortesia da Sra. Gabaldon.

17 de agosto de 2011

Do passado veio um presente...

Que Jamie Fraser é um herói arquetípico, todos sabem. Claro, perfeito ele não é. Tem lá o seu quinhão de defeitos, como todo mundo. Mas...se eu ficasse perdida em uma ilha, quereria ficar na companhia dele. Não só por ser lindo e ser o típico macho-alfa, seja lá o que isso signifique. Mas, espero que até o final do post fique claro o porquê da minha colocação.

Uma das características  marcantes dessa ficção criada pela Diana Gabaldon é o fato do enredo não se mostrar um romance de amor logo de cara. Tenho uma grande simpatia pela relação de Jamie e Claire por conta de que ela vai se construindo aos poucos. No início, não se esconde que Claire nutre uma grande simpatia por Jamie. Até virar uma atração, que ela própria irá reconhecê-la como tal, muita coisa acontece. Até virar amor consolidado há que se prescrever uma certa dose de convivênvia. E o casal obedece a prescrição direitinho. Mas, tenho que dizer: o olhar que Jamie tem da Claire é um pouco diferente. Apesar dele ser uma figura inescrutável e de natureza fechada (para todos, somente não para Claire), ele a elege para si mesmo desde o início; de forma, creio eu, inconsciente. Só para constar, o termo "sassenach" que soa pejorativo ao carregar uma atribuição de desvalor e desprezo, na boca de Jamie soa como uma designação afetiva.  

Por isso, um dos presentes mais lindos que ele dá para Claire é a confiança. Ele acredita e confia em Claire. Enquanto ela é encarada como espiã, uma  forasteira tantos pelos escoceses como pelos ingleses, Jamie revela a ela muitas confidências que lhe valhem a vida. Lembremos que a cabeça do cara estava a prêmio. E antes mesmo de contraírem matrimônio, ele claramente vendo algo especial nela que também seria para si, promete protegê-la:

Não precisa ter medo de mim. Nem de ninguém aqui, enquanto eu estiver com você. p.87

A Claire que não é besta, logo o percebe:

Para um jovem fugitivo, com inimigos desconhecidos, Jamie confiara demais em uma estranha. p.126

É isso. É lindo. Se fosse definir a relação de ambos em uma palavra, eu diria, sem pensar duas vezes: confiança.

Essa parceria improvável dá o tom mais afinado da história. Para que haja Claire, é preciso haver Jamie. E vice-versa.

16 de agosto de 2011

Claire e a mulher de Lot

A viajante do tempo traz muitas referências cristãs. Hoje vamos falar de uma referência bíblica importante inserida no primeiro capítulo da trama. Após o relato de Frank sobre ter visto o Jamie (presumivelmente, um fantasma) olhando para a janela do quarto de Claire, há uma breve DR (discussão da relação) entre marido e mulher. Frank fica com ciúme e com a pulga atrás da orelha. Claire, claramente ofendida com as insinuações do marido, demonstra-se relutante em corresponder ao abraço de trégua. Nesse momento, Claire se compara à mulher de Lot:
Permaneci petrificada como a mulher de Lot, mas ele insistiu, acariciando os meus cabelos e esfregando os meus ombros da maneira que sabia que eu gostava. (A viajante do tempo, p.28)

Essa metáfora revela muita coisa da condição da protagonista, especialmente, pelo fato de usar de tal comparação no instante em que está com Frank. O que me leva a pensar que talvez fosse então uma mensagem inconsciente de Claire. Talvez ela intuísse estar parada entre um lugar (ou condição) na qual não mais devesse permanecer e um lugar (ou condição) para onde devesse realmente ir. Como a mulher de Lot tentara preservar um vínculo que não lhe agregaria mais valor, talvez fosse essa a condição de Claire. Não à toa, Jamie aparece justamente nessa passagem.

A mulher de Lot também retrata a necessidade inadiável da escolha que nos paraliza. Com Claire não será diferente. Sua condição é bem definida pela Sra. Graham:
Há a folha curvada para uma viagem, mas está cruzada pela folha quebrada que significa permanecer no lugar. (A viajente do tempo, p.36)


15 de agosto de 2011

Você sabia?

Diana Gabaldon não tinha intenção alguma de mostrar/publicar A viajante do tempo (o primeiro livro). Tratava-se apenas de um exercício de escrita para produção de romances. Levou tão a sério o aprendizado que o resultado se concretizou em uma obra-prima. Emocionalmente honesta e tecnicamente exigente, criou uma série que, segundo ela, não se enquadra em nenhuma categoria ou gênero. Se é possível uma definição, diz ser a série Outlander uma enorme ficção histórica, com uma linha romântica e outra fantástica a atravessá-la.

Plus: A viajante do tempo levou 18 meses para ser escrita.

Fonte: http://januarymagazine.com/profiles/gabaldon.html

Sr. Crook

Considerando o background científico da Diana Gabaldon, fato este que reflete e explica muito da sua escrita meticulosa, deduzo que nada do que é mostrado na trama esteja ali a esmo, sem um para quê planejado e definido. E saindo um pouco do enigmático primeiro capítulo (uma das melhores introduções de romances já feitas, na minha humilde opinião), eis que no segundo capítulo surge a figura misteriosa do Sr. Crook. Bom, além da importantíssima missão de mostrar a Claire alguma plantas raras da região, ele vai mais além. Ele se "encarrega" de apresentá-la à colina Craigh na Dun. E eu sempre me pergunto: foi de caso pensado ou mero acaso? Saberia o Sr. Crook de algo? 

Se lembrarmos que o combinado foi o de mostrar plantinhas para Claire, porque ele disse que pretendia mostrar-lhe Craigh na Dun depois do lanche? Foi o que ele disse. E se tomarmos a palavra pretender no sentido de " ter por objetivo", é possível que  de alguma forma ele tenha planejado o grande evento daquele dia? O fato de observá-la, com um sorriso afável, (Ou seria um sorriso de um sabe-tudo? Um sorriso em nada inofensivo?) circular por entre as pedras e tocar em uma delas não lhes parece sugestivo demais? E um senhor idoso subir e descer uma ribanceira íngreme é algo "sui generis"; como a Claire notara ao dizer que ele provavelmente tinha as pernas mais firmes do que as delas.

Sempre achei que aí tem.

A título de curiosidade aí vai o significado do vocábulo crook em inglês segundo o dicionário Michaelis:

crook
n 1 gancho. 2 curva, curvatura. 3 dobramento, arqueamento. 4 peça curvada. 5 cajado, bordão de pastor. 6 coll pessoa desonesta, trapaceiro, escroque. 7 genuflexão. • vt+vi 1 curvar, entortar. 2 curvar-se. by hook or by crook de qualquer modo. he has a crook in his nature ele tem maneiras esquisitas.

11 de agosto de 2011

A preparação de Claire

A caracterização da Claire, personagem central do livro,  é o exemplo de como fazer uma literatura engajada sem ser explícito, leia-se, chato. Houve uma preocupação em fugir do estereótipo da fragilidade e, por conseguinte, das idealizações que impõe à mulher um papel de perfeição. A Claire é irônica, divertida, desbocada, mas sem perder a elegância que lhe reserva um ar de autoridade. Provida de dores e amores, mas sem perder a calma e a praticidade; é assim que a vejo. Vale destacar a composição dada à ela e à sua trajetória na trama. Díficil não ver que todos os caminhos de sua vida a levariam até Craigh na Dun, o portal megalítico. Porém, é mais do que isso. Sua vida ao lado do tio arqueólogo fez com que transitasse no mundo como uma nômade. Experiência que lhe será vital após a passagem no círculo de pedras. Difícil não ver a influência do tio (que detestava conflitos pessoais, chapéus femininos) em sua vida. E se Claire teve jogo de cintura para enfrentar às Highlands dos idos de 1700s, foi graças ao seu tio Lamb que, muito habilmente, lhe mostrara a dureza da vida de arqueólogo. Além disso, o casamento com Frank, professor universitário, não a afastou da vida nômade, muito pelo contrário. E, claro, o seu  ofício de enfermeira na segunda grande guerra foi, sem dúvida, mais uma experiência desse intensivão que a preparou para o que estava por vir: A grande viagem.

10 de agosto de 2011

A viajante do tempo - O primeiro capítulo.



Esse é o primeiro livro da série. E o mais querido. É onde tudo começa, é onde a autora nos fornece pistas e não faz economia na descrição e no detalhamento da trama e de seus personagens. O primeiro capítulo exerce em mim um apelo especial. É a primeira vez que Claire, Jamie e Frank aparecem em um capítulo. Talvez seja essa a única vez. É um capítulo para se guardar na memória pelas inúmeras referências do passado, presente e futuro nele contido. Mas vou tratar disso depois.