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5 de outubro de 2011

O mundo dá voltas...


Vez ou outra, penso na natureza cíclica da vida que nos faz colidir com os nossos medos mais íntimos. Outlander tem tantas reviravoltas e uma vasta quantidade de exemplos sobre quando a vida nos coloca diante de dilemas. Será a vida um jogo de cartas marcadas?  A mão do destino é determinismo ou livre-arbírtrio? Enquanto escrevo, não penso em Jamie e Claire. Penso em Frank. No primeiro livro, ele opina sobre adoção e... oh céus, como fica patente o quanto não sabemos nada da vida!
Eu não iria me sentir bem em relação a uma criança que não é...bem, do meu próprio sangue.
O ser humano sempre teve dificuldades em compreender as coisas que são invisíveis aos seus olhos. Mas bastou uma passada d'olhos em um lindo bebê - que não era do seu proprio sangue - para Frank se entregar por inteiro. Quem diria, ele se tornou um paizão. E hoje relendo O resgate no mar, eis que me deparo com a seguinte declaração de Claire: O destino de Frank era Brianna. Simplesmente de arrepiar. Pessoalmente, acho que a Brianna foi o passaporte para que Frank pudesse viver a vida de maneira profundamente emocional. E sim, eu acredito no livre-arbítrio. Frank teve sorte em poder escolher a filha que teve.

18 de agosto de 2011

L'Heure Bleue



(...) Peguei o frasco de L'Heure Bleue e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume se evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas. (...) Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleue era sua colônia favorita. - p.23
 
L'Heure Bleue. Traduzido do francês: Hora azul. Pode ainda significar o crepúsculo a tingir o firmamento de um matiz frio de azul. O perfume foi criado há 100 anos por Jacques Guerlain. Sua composição integra anis, bergamota, cravo, flor de laranjeira, heliotrópio, rosa búlgara, tuberosa, íris, baunilha e almíscar. O efeito produzido é romântico, misterioso, triste,  melancólico, contendo ainda um tom de elegância calma.

Nos períodos de guerra, em razão do racionamento, era luxo ter um frasco desses aí. Claire chega a comentar isso. Diante desse quadro, é possível imaginar as belas damas com seus chapéus clochê  despedindo-se dos amados que lutariam as mais duras das guerras. A emanação aromática neles impregnada atuaria como um doce beijo de adeus ao cair da noite. 

L'HB, dizem os entendidos, é completo e rico para ser uma coisa só. Mesmo porque o segredo de sua fragância não se revela à proximidade de uma superficial "snif". Ao contrário, impõe respeito. Ora, não haveria marca distintiva melhor para Claire. 

Hoje usar L'HB seria como viajar no tempo, pois evoca as imagens nostálgicas dos tempos idos.

Conhecendo bem a história, percebe-se que essa referência literária ao produto é muito mais do que merchandising. É, na verdade, mais um simbolismo especial com a cortesia da Sra. Gabaldon.

17 de agosto de 2011

Do passado veio um presente...

Que Jamie Fraser é um herói arquetípico, todos sabem. Claro, perfeito ele não é. Tem lá o seu quinhão de defeitos, como todo mundo. Mas...se eu ficasse perdida em uma ilha, quereria ficar na companhia dele. Não só por ser lindo e ser o típico macho-alfa, seja lá o que isso signifique. Mas, espero que até o final do post fique claro o porquê da minha colocação.

Uma das características  marcantes dessa ficção criada pela Diana Gabaldon é o fato do enredo não se mostrar um romance de amor logo de cara. Tenho uma grande simpatia pela relação de Jamie e Claire por conta de que ela vai se construindo aos poucos. No início, não se esconde que Claire nutre uma grande simpatia por Jamie. Até virar uma atração, que ela própria irá reconhecê-la como tal, muita coisa acontece. Até virar amor consolidado há que se prescrever uma certa dose de convivênvia. E o casal obedece a prescrição direitinho. Mas, tenho que dizer: o olhar que Jamie tem da Claire é um pouco diferente. Apesar dele ser uma figura inescrutável e de natureza fechada (para todos, somente não para Claire), ele a elege para si mesmo desde o início; de forma, creio eu, inconsciente. Só para constar, o termo "sassenach" que soa pejorativo ao carregar uma atribuição de desvalor e desprezo, na boca de Jamie soa como uma designação afetiva.  

Por isso, um dos presentes mais lindos que ele dá para Claire é a confiança. Ele acredita e confia em Claire. Enquanto ela é encarada como espiã, uma  forasteira tantos pelos escoceses como pelos ingleses, Jamie revela a ela muitas confidências que lhe valhem a vida. Lembremos que a cabeça do cara estava a prêmio. E antes mesmo de contraírem matrimônio, ele claramente vendo algo especial nela que também seria para si, promete protegê-la:

Não precisa ter medo de mim. Nem de ninguém aqui, enquanto eu estiver com você. p.87

A Claire que não é besta, logo o percebe:

Para um jovem fugitivo, com inimigos desconhecidos, Jamie confiara demais em uma estranha. p.126

É isso. É lindo. Se fosse definir a relação de ambos em uma palavra, eu diria, sem pensar duas vezes: confiança.

Essa parceria improvável dá o tom mais afinado da história. Para que haja Claire, é preciso haver Jamie. E vice-versa.

16 de agosto de 2011

Claire e a mulher de Lot

A viajante do tempo traz muitas referências cristãs. Hoje vamos falar de uma referência bíblica importante inserida no primeiro capítulo da trama. Após o relato de Frank sobre ter visto o Jamie (presumivelmente, um fantasma) olhando para a janela do quarto de Claire, há uma breve DR (discussão da relação) entre marido e mulher. Frank fica com ciúme e com a pulga atrás da orelha. Claire, claramente ofendida com as insinuações do marido, demonstra-se relutante em corresponder ao abraço de trégua. Nesse momento, Claire se compara à mulher de Lot:
Permaneci petrificada como a mulher de Lot, mas ele insistiu, acariciando os meus cabelos e esfregando os meus ombros da maneira que sabia que eu gostava. (A viajante do tempo, p.28)

Essa metáfora revela muita coisa da condição da protagonista, especialmente, pelo fato de usar de tal comparação no instante em que está com Frank. O que me leva a pensar que talvez fosse então uma mensagem inconsciente de Claire. Talvez ela intuísse estar parada entre um lugar (ou condição) na qual não mais devesse permanecer e um lugar (ou condição) para onde devesse realmente ir. Como a mulher de Lot tentara preservar um vínculo que não lhe agregaria mais valor, talvez fosse essa a condição de Claire. Não à toa, Jamie aparece justamente nessa passagem.

A mulher de Lot também retrata a necessidade inadiável da escolha que nos paraliza. Com Claire não será diferente. Sua condição é bem definida pela Sra. Graham:
Há a folha curvada para uma viagem, mas está cruzada pela folha quebrada que significa permanecer no lugar. (A viajente do tempo, p.36)


11 de agosto de 2011

A preparação de Claire

A caracterização da Claire, personagem central do livro,  é o exemplo de como fazer uma literatura engajada sem ser explícito, leia-se, chato. Houve uma preocupação em fugir do estereótipo da fragilidade e, por conseguinte, das idealizações que impõe à mulher um papel de perfeição. A Claire é irônica, divertida, desbocada, mas sem perder a elegância que lhe reserva um ar de autoridade. Provida de dores e amores, mas sem perder a calma e a praticidade; é assim que a vejo. Vale destacar a composição dada à ela e à sua trajetória na trama. Díficil não ver que todos os caminhos de sua vida a levariam até Craigh na Dun, o portal megalítico. Porém, é mais do que isso. Sua vida ao lado do tio arqueólogo fez com que transitasse no mundo como uma nômade. Experiência que lhe será vital após a passagem no círculo de pedras. Difícil não ver a influência do tio (que detestava conflitos pessoais, chapéus femininos) em sua vida. E se Claire teve jogo de cintura para enfrentar às Highlands dos idos de 1700s, foi graças ao seu tio Lamb que, muito habilmente, lhe mostrara a dureza da vida de arqueólogo. Além disso, o casamento com Frank, professor universitário, não a afastou da vida nômade, muito pelo contrário. E, claro, o seu  ofício de enfermeira na segunda grande guerra foi, sem dúvida, mais uma experiência desse intensivão que a preparou para o que estava por vir: A grande viagem.

10 de agosto de 2011

A viajante do tempo - O primeiro capítulo.



Esse é o primeiro livro da série. E o mais querido. É onde tudo começa, é onde a autora nos fornece pistas e não faz economia na descrição e no detalhamento da trama e de seus personagens. O primeiro capítulo exerce em mim um apelo especial. É a primeira vez que Claire, Jamie e Frank aparecem em um capítulo. Talvez seja essa a única vez. É um capítulo para se guardar na memória pelas inúmeras referências do passado, presente e futuro nele contido. Mas vou tratar disso depois.